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Mercado Imobiliário

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Curitiba diante do avanço do short stay: crescer sem perder o equilíbrio

O crescimento dos studios e da locação de curta duração em Curitiba pede um olhar atento para a oferta de moradia e o mercado de aluguel tradicional.

Cena ilustrativa de edifícios residenciais, uma moradora com compras e um visitante com mala em uma rua arborizada.

O despejo de uma idosa de 87 anos do imóvel onde viveu durante mais de sete décadas, em Madri, voltou a colocar em evidência uma discussão que há anos ocupa grandes cidades europeias: como equilibrar moradia, investimento imobiliário e o crescimento das locações de curta duração.

O episódio espanhol possui particularidades próprias e não pode ser atribuído simplesmente ao Airbnb. Mas acontece em uma cidade onde o crescimento do short stay já levou o poder público a intervir no mercado.

Para Curitiba, talvez o mais importante não seja discutir o que Madri deveria ter feito. É observar a experiência europeia enquanto ainda estamos construindo nosso próprio modelo.

E os números mostram que essa discussão já chegou até aqui.

Atualização, 30 de setembro de 2026: após o despejo, foi firmado um acordo para que a moradora de Madri possa voltar ao imóvel quando receber alta hospitalar.

Curitiba está mudando sua forma de construir — e de investir

Curitiba atravessa um dos ciclos imobiliários mais fortes de sua história recente.

Segundo levantamento da BRAIN Inteligência Estratégica apresentado pela ADEMI-PR, foram mais de 12 mil apartamentos novos comercializados nos últimos 12 meses, movimentando R$ 9,3 bilhões em VGV. Apenas no segundo trimestre de 2026 foram vendidas 3.480 unidades, crescimento de 50,1% em relação ao mesmo período de 2025.

Mas existe outra transformação acontecendo dentro desses números.

No primeiro trimestre de 2026, studios e apartamentos compactos chegaram a representar quase 70% dos lançamentos verticais de Curitiba. No segundo trimestre, mesmo com uma mudança na composição dos lançamentos, os compactos continuaram majoritários, com 55,4%.

Curitiba tornou-se, proporcionalmente, um dos mercados brasileiros mais concentrados nesse tipo de imóvel.

E isso importa porque o próprio setor reconhece que o perfil do comprador também mudou.

A ADEMI-PR, a partir dos dados da BRAIN, aponta que os studios deixaram de representar apenas uma nova forma de morar e passaram a funcionar também como porta de entrada do investidor no mercado imobiliário.

Surge então uma pergunta que será cada vez mais importante:

Hoje ainda não há um dado público consolidado capaz de responder com precisão a essa divisão.

O short stay já faz parte do negócio imobiliário curitibano

A parceria anunciada neste mês entre Airbnb, Blue e Invespark mostra que não estamos mais falando apenas do proprietário que ocasionalmente disponibiliza seu apartamento em uma plataforma.

Cinco empreendimentos das linhas AYA e Cena passaram a integrar o programa Condomínios Parceiros do Airbnb.

Blue e Invespark detêm, segundo informações divulgadas na apresentação do projeto, cerca de 35% do mercado de imóveis compactos da cidade.

São empreendimentos preparados para que moradores permanentes e proprietários interessados em locação de curta duração possam coexistir dentro do mesmo condomínio.

Curitiba já é o quinto maior mercado do Airbnb no Brasil. Segundo estudo da FGV divulgado pela plataforma, a atividade movimentou mais de R$ 2 bilhões na economia da cidade em 2025, gerou R$ 626 milhões em renda e esteve associada à manutenção de mais de 13 mil postos de trabalho.

O short stay, portanto, já não pode ser tratado como fenômeno periférico.

Ele passou a fazer parte da economia e do mercado imobiliário da cidade.

Cena ilustrativa de studio compacto com espaço de morar, livros e mala de viagem.
Imagem ilustrativa: o mesmo studio pode atender à moradia permanente ou à hospedagem de curta duração.

Mas existe outro mercado que Curitiba precisa preservar

Ao mesmo tempo, 26% dos moradores de Curitiba vivem em imóveis alugados. Dados do Inpespar/Secovi-PR mostram ainda demanda relevante justamente por apartamentos de um e dois dormitórios no mercado convencional de locação.

E existe um número ainda mais sensível.

Estudo do IPPUC aponta quase 35 mil famílias afetadas pelo déficit habitacional em Curitiba e identifica o alto custo do aluguel como responsável por 88% desse déficit.

Isso não significa que o short stay seja responsável pelo problema habitacional da cidade.

Mas demonstra por que será necessário acompanhar sua expansão.

O mesmo studio que interessa ao investidor para receber hóspedes durante alguns dias também pode servir de residência para um estudante, jovem profissional, casal ou pessoa que vive sozinha.

Quanto maior for a rentabilidade da curta temporada, maior poderá ser o incentivo econômico para direcionar parte desses imóveis para esse mercado.

É justamente essa relação que Curitiba precisa começar a medir.

O equilíbrio pode ser nossa vantagem

Curitiba parece seguir um caminho diferente daquele adotado inicialmente por algumas cidades europeias.

Em vez de simplesmente permitir que o short stay cresça informalmente para regulamentá-lo posteriormente, parte do mercado local começa a desenvolver empreendimentos preparados para essa modalidade, com regras condominiais, controle de hóspedes e integração entre proprietários, administradores e plataforma.

Isso pode ser uma vantagem.

Mas profissionalizar o short stay não elimina a necessidade de acompanhar seus efeitos sobre a oferta residencial.

O desafio não deveria ser escolher entre o turista e o morador.

Curitiba precisa dos dois.

Precisa dos visitantes que movimentam eventos, restaurantes, comércio e serviços. Precisa do investidor que financia novos empreendimentos. Precisa também manter oferta suficiente de imóveis para quem pretende viver na cidade e procura contratos tradicionais de aluguel.

Talvez, portanto, o indicador mais importante dos próximos anos não seja somente quantos studios Curitiba consegue vender.

Será descobrir o que acontece com eles depois da venda.

Se a cidade conseguir acompanhar essa transformação enquanto ela acontece, poderá fazer algo que várias cidades europeias tiveram dificuldade de fazer:

Não se trata de impedir um novo modelo de negócio.

Trata-se de encontrar o equilíbrio antes que seja necessário recuperá-lo.

Foto de Maurício SalustianoLinkedin
Autor(a) da publicação: Maurício SalustianoAccount Manager na Numuu

Account Manager na Numuu, com experiência em gestão de contas, vendas e operações comerciais. Atua conectando estratégia, comunicação e métricas para gerar resultados mensuráveis.

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