Em 2024, 60% das buscas feitas no Google não terminavam em clique nenhum, a pessoa via a resposta ali mesmo, na tela de resultados, e ia embora. No início de 2026, essa taxa já bateu 68%, segundo levantamento da SparkToro com dados de clickstream da Similarweb. Quando o resultado inclui uma resposta gerada por IA (o AI Overview do Google), a taxa de páginas sem nenhum clique sobe para 83%.
A causa é conhecida: o Google, o ChatGPT, o Gemini e companhia pararam de devolver uma lista de links e passaram a devolver a resposta pronta, hoje o usuário é retido na própria plataforma de busca. Só que o dado que costuma passar despercebido é o outro lado dessa mesma mudança: O tráfego que ainda sobra desse novo modelo de busca é visivelmente mais valioso do que o tráfego de busca tradicional, em alguns levantamentos, converte quase dez vezes mais. Isso é o que muda a forma como o povo do marketing deveriam medir e priorizar canal de aquisição a partir de agora.
O clique que sobrou vale mais
Assistentes de IA generativa enviam entre 95% e 96% menos tráfego de referência do que uma busca tradicional no Google, segundo a Ahrefs, a taxa de clique a partir de uma resposta de IA fica abaixo de 1%, uma ordem de grandeza menor que a de uma página de resultados comum. O próprio buscador do Google também está reduzindo o clique nas páginas mais bem posicionadas, segundo dados mais recentes da Ahrefs, o AI Overview corta em 58% o CTR médio de quem está no topo do ranking, quase o dobro do impacto medido apenas oito meses antes.
O contraponto aparece nos estudos de conversão. Um case da agência Seer Interactive mediu tráfego vindo do ChatGPT convertendo a 15,9%, contra 1,76% do mesmo site vindo de busca orgânica no Google, quase 9 vezes mais. Um levantamento da Visibility Labs, analisando 94 lojas de e-commerce ao longo de 12 meses, encontrou uma diferença menor mas na mesma direção, tráfego do ChatGPT convertendo 31% acima da busca orgânica. Em março de 2026, segundo a mesma linha de pesquisa, visitantes vindos de assistentes de IA (ChatGPT, Perplexity e outros) converteram 42% melhor que o tráfego que não vem de IA, o robozinho tira com uma mão mas devolve com a outra (será?).
Por que quase ninguém mudou de estratégia ainda
A explicação para essa conversão mais alta é simples, quando alguém chega ao site depois de uma resposta de IA, o assistente já comparou opções, resumiu especificações e resolveu boa parte da fase de consideração. Quem clica, clica decidido (ou induzido?). É basicamente o oposto do clique de busca tradicional, que ainda carrega muita gente em fase de pesquisa.
O motivo dessa mudança ainda não ter virado prioridade de verba em todo lugar é volume. Tráfego de assistentes de IA representa hoje cerca de 0,15% do tráfego total da web, contra 48,5% do Google orgânico. É pouco, mas a curva de crescimento vem exatamente da direção contrária à do Google: enquanto a taxa de zero-clique do Google sobe, a fatia de buscas que nascem direto em uma IA cresce mês a mês. Ignorar esse canal porque o volume ainda é pequeno é o mesmo erro histórico de ignorar buscas por voz ou por vídeo no início de cada uma dessas ondas.
De onde a IA tira a resposta
Um levantamento da Muck Rack, analisando mais de 25 milhões de links citados por ChatGPT, Claude e Gemini em 17 setores, encontrou que mídia espontânea (reportagem, matéria jornalística, cobertura editorial) responde por 84% de todas as citações feitas por essas Ias, só o jornalismo puro corresponde a 27% do total. Do outro lado, releases de imprensa tradicionais aparecem em apenas 0,2% das citações, uma proporção de 188 para 1 a favor da matéria jornalística sobre o release institucional.
Esse padrão também aparece por rede social. Levantamentos recentes da Profound, da Meltwater e da Semrush, cada um com metodologia própria, analisando de centenas de milhares a milhões de citações de IA, chegam à mesma conclusão: O LinkedIn está entre as duas fontes mais citadas por assistentes de IA em consultas profissionais e B2B, à frente do Instagram e do TikTok. A Profound aponta o LinkedIn como fonte nº1 em todas as plataformas testadas (ChatGPT, Gemini, AI Overviews, AI Mode do Google, Copilot e Perplexity), a Meltwater o coloca em segundo lugar, atrás só do YouTube.
O que fazer com isso, segundo quem vive de SEO
Diego Ivo, CEO da agência Conversion, discute essas mudanças. Ele descreve o mesmo padrão de citação por reputação: no lugar de tentar convencer a IA diretamente, o caminho é gerar conteúdo que outras fontes confiáveis acabem citando. Segundo ele, conteúdo com dado e estatística concreta tem cerca de 41% mais chance de ser citado por uma IA do que texto sem número. Uma cifra próxima da que a Onely, empresa de consultoria em SEO, documentou de forma independente (~40% mais citação para conteúdo com dado quantitativo específico frente a afirmação vaga), o que sugere que isso é uma tendência real.
Nesse novo cenário onde a informação de qualidade tem um peso relevante é muito importante que as empresas, de todos os tamanho (para as de porte médio pra cima é mandatório) produzam dados próprios de mercado (pesquisas, benchmarks setoriais, opiniões de mercado) como estratégia de relações públicas. Esse tipo de conteúdo tem mais chance de virar matéria jornalística (ou ser interpretado como uma) e a matéria jornalística, como mostra o levantamento da Muck Rack, é a fonte que a IA mais cita.
O takeaway prático
A combinação dos dados de mercado com a leitura de quem opera SEO no dia a dia aponta para uma prioridade dupla, continuar otimizando para o clique que ainda existe (a maior parte do tráfego ainda vem daí), e paralelamente investir em ser citado como fonte, LinkedIn de quem lidera a empresa, presença em matéria de imprensa, conteúdo com dado original... porque é esse crédito que alimenta a fatia de tráfego que mais cresce e que converte melhor. Quem tratar isso como duas métricas separadas, e não avaliar as duas juntas, vai continuar vendo o próprio crescimento em canais de IA como um "ruído" que não aparece no relatório semanal do menino do marketing.
Fontes
- Search Engine Land / SparkToro: Google zero-click searches reach 68% in early 2026
- Ahrefs: AI Overviews Reduce Clicks by 34.5%/58%
- Seer Interactive: Case Study: How Traffic from ChatGPT Converts
- Visibility Labs: ChatGPT Traffic Converts 31% Better than Non-Branded Organic Search
- AirOps: AI Referral Traffic vs Organic Search
- Muck Rack: Earned media drives 84% of AI citations
- Profound: LinkedIn is the most-cited domain for professional queries in AI search
- Meltwater, via Yahoo Finance: LinkedIn is the #2 most-cited source in AI answers
- Papo Social Media: Estratégia GEO: o novo padrão de busca com Diego Ivo22/06/2026
Entrevista com Diego Ivo (Conversion), usada como leitura prática, não como fonte dos dados de mercado.





